Entrando no Jiu Jitsu… O Caminho Tortuoso (Episódio 3)

 

Primeiro Contato: Dias de UMMA

Meu primeiro contato com o Jiu Jitsu  ou como o povo fala em Ingles – Brazilian Jiu-Jitsu (BJJ) aconteceu quando eu estava treinando na academia Ultimate Mixed Martial Arts (UMMA, agora conhecida como UMA) em Melbourne, Australia.

O foco principal do programa era o Karate Goju-Ryu, com Katas em abundância para mantê-lo honesto (e seus joelhos reclamando). Mas também havia um pouco de Judô, Wrestling, Boxe e o que eles chamavam de táticas de “Autodefesa”. O BJJ era mencionado com muita frequência, mas apenas em conversas.

Os instrutores falavam que era terrivelmente complexo, melhor aprendido em aulas dedicadas, e não espremido no programa misto existente. Em 2007, Faixas Pretas de BJJ eram mais raras do que cachorros de três pernas. Nosso coach era Faixa Azul, o que é basicamente o equivalente marcial de “sabe o suficiente para ser perigoso, principalmente para si mesmo”.
Era assim que eu costumava pensar, mas agora sei que um faixa branca de BJJ de dois graus poderia facilmente vencer qualquer faixa preta de Karatê que não tivesse defesa contra quedas.

 

A batalha do imigrante

No entanto, há uma coisa sobre ser um imigrante: você constrói fortalezas. Você encontra no que é bom, o que faz sentido, o que parece um lar e o defende ferozmente. A luta em pé era minha fortaleza. De pé, eu me sentia ágil, eficiente, até perigoso. Eu não precisava de luta de chão; eu tinha disciplina, forma, tradição, eu tinha os chutes que o JVCD me ensinou em cassete de video VHS, eu tinha a base que meu primeiro sensei me treinou por anos. O trabalho de chão parecia um caos, como rolar sem motivo, como admitir que você havia perdido antes do combate real começar.

Eu também tinha essa noção boba, quase arrogante, de que qualquer pessoa abaixo da Faixa Preta não poderia ensinar adequadamente. Faixas Pretas haviam ganhado seu conhecimento. Todos os outros estavam apenas… tentando. Olhando para trás, isso era puro ego embrulhado na linguagem do respeito. Foi um erro de imigrante: confundir hierarquia rígida com sabedoria, e confundir gatekeeping (barreira de entrada) com integridade. Levou anos para entender que a humildade não é fraqueza; na verdade, é o ponto principal.

 

A Realidade Humilhante, Quando Sua Fortaleza Desmorona

Depois de quase cinco anos na UMA eu comecei treinando Kyokushin, e não foi até 2013 que comecei a ter mais interesse no Jiu Jitsu. Entao, mergulhei de cabeca e experimentei um punhado de escolas de BJJ, incluindo a então renomada CIA Paulista HQ no CBD de Melbourne. Carlos, um dos poucos faixas pretas da época, é uma lenda, um ótimo coach e um brasileiro que falava minha língua nativa. Mas o longo deslocamento, meu próprio ego e o medo venceram aquela batalha.

O consenso após cada visita à academia de BJJ era cristalino: eu era péssimo na pegada!

Eu me achava ótimo! Em forma, forte, um “artista marcial capaz e realizado” (era o que eu falava para todos). Meus aquecimentos de aula de Karate envolviam centenas de flexões, agachamentos e abdominais. Meus músculos foram treinados para intimidar. Nada disso importava no tatame de BJJ.

Aqui está a piada filosófica que o universo prega: toda a sua força não significa nada quando alguém entende de alavancagem (preste atenção a este conceito). Todos os seus anos de prática em pé desaparecem no momento em que você está horizontal e confuso.

Eu era consistentemente humilhado, finalizado por armbars (chaves de braço) e estrangulamentos de gola, me perguntando como meus braços podiam dobrar em direções que eu desconhecia. E a cada vez, essa voz baixa interior dizia: “Você não sabe o que não sabe. E isso, na verdade, não tem problema.

Mas para um imigrante que havia construído sua identidade com base na competência e na autoconfiança, essa voz não era bem-vinda.

 

A Fábrica de Desculpas: Um Ciclo de Três a Seis Meses

O que está acontecendo? Honestamente, essa pergunta flutuava na minha cabeça constantemente após cada treino. Aqui estava eu, um striker capaz, muito em forma, respeitado nos círculos de luta em pé e, no entanto, eu continuava sendo demolido por pessoas com metade da minha idade que treinavam BJJ há menos de dois anos.

Então, me tornei um mestre em dar desculpas. Material digno de Oscar, de verdade:
A escola não era a certa. O instrutor era questionável. Os parceiros de treino eram muito agressivos. Minha idade (chegando aos 40!) certamente tinha algo a ver com isso. Os tatames eram muito finos. A umidade em Melbourne. A fase da lua.
Havia sempre uma razão, nunca minha culpa, obviamente. Este é o segundo truque do imigrante: somos brilhantes em explicar por que o fracasso é circunstancial, nunca pessoal.

O padrão tornou-se quase poético em sua previsibilidade: aparecer com confiança, ser demolido, sofrer uma lesão no flexor do quadril ou um ombro que de repente se lembra de que é mortal, tirar de três a seis meses de folga enquanto a desculpa fermenta, e repetir o ciclo. Cada pausa ficava mais longa. Cada retorno ficava mais difícil. E a cada vez, eu recuava para minha zona de conforto: luta em pé sólida, chutes giratórios que impressionariam as mães dos meus amigos, defesa de striking forte. Fortaleza reconstruída, escorada com novas desculpas, armada com novas racionalizações.

O pior de tudo? No fundo, eu sabia que estava mentindo para mim mesmo. E essa é a pior espécie de derrota, não perder no tatame, mas perder para a sua própria covardia enquanto finge que é sabedoria.

 

A Voz Persistente: Quando a Fortaleza Começa a Rachar

Mas no fundo, a voz do BJJ nunca parou de chamar. Mesmo dizendo a mim mesmo que eu era um artista marcial “completo”, os tatames discordavam silenciosamente. Havia essa sensação incômoda, esse assunto inacabado. Os filósofos falam sobre o “eu” ser fixo e estável. As artes marciais ensinam que não é bem assim.

É aqui que a filosofia encontra a experiência do imigrante: ambas tratam de tornar-se. Você vem de algum lugar, mas também está sempre chegando a outro. Você pensa que está “pronto”: pronto para aprender, pronto para crescer, pronto para ser humilhado. Mas os tatames, assim como a vida, continuam insistindo que você não está.

Talvez seja teimosia. Talvez seja a beleza irônica das artes marciais: não importa quantas vezes você seja finalizado, amassado ou dobrado em origami, sempre há outra rodada. Há sempre algo que você não viu chegando. Há sempre uma maneira melhor. E isso é, na verdade, libertador, se você permitir que seja.

Para um imigrante, isso deve parecer familiar; a constante recalibração, a adaptação interminável, a disposição para começar de novo.

O clichê das artes marciais é: “você deve aprender a perder antes de poder vencer.” A versão do imigrante é: “Você deve aprender a perder tudo antes de entender o que importa.”

 

O Retorno Eterno

Se o BJJ ensina alguma coisa, é que a humildade é melhor servida em finalizações (tap-outs). E, justiça seja feita, eu acumulei uma pilha decente delas ao longo dos anos. Mas, mais importante, aprendi que a fortaleza que construí não era proteção, era uma prisão. E o inimigo não eram os tatames, nem os grapplers mais jovens, nem a minha idade. Era a parte de mim que acreditava que competência e valor eram a mesma coisa.

A jornada continua, uma rodada embaraçosa de cada vez. E estou aprendendo, finalmente, que ser um iniciante aos 40 anos não foi um fracasso. Foi uma escolha. E escolher começar de novo, ser humilhado novamente, não saber novamente — essa é a verdadeira arte marcial.

Tenho 52 anos agora, e adotei com alegria uma mentalidade de faixa branca: permanecendo curioso e sempre ansioso para aprender coisas novas.

Continua…

 

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