Distintivo, Faixa e Ossos Quebrados – Policiando & Treinando (Episódio 9)

Capitulo 1

É uma coisa estranha reinventar-se aos 40 anos. A maioria dos homens nessa idade está comprando carros esportivos ou se acomodando no longo e confortável declínio rumo à aposentadoria. Eu estava fazendo burpees num uniforme que não servia direito, cercado por garotos que poderiam ser meus filhos.

Sempre tive um espírito inquieto. Toquei em bandas até ficar velho demais para a vida na estrada. Cozinhei em cozinhas profissionais até o calor perder o encanto. Trabalhei com engenheiros na construção civil até minhas mãos sangrarem. Mas a polícia era diferente. Era uma semente adormecida, plantada no fundo da minha infância por séries policiais americanas onde a justiça era rápida e os mocinhos sempre venciam. Era também, talvez, uma maneira de resgatar o senso de dever que senti no Exército Português, um desejo de me colocar entre os fracos e os lobos.

Mas a realidade da Academia foi um balde de água fria. No Exército Português, o respeito era físico. Você corria mais rápido, marchava mais longe e atirava melhor. Se você fosse de elite, você liderava.

Na Academia de Polícia Australiana, os padrões físicos tinham sido baixados para ampliar o recrutamento. A minha “vantagem”, meu condicionamento, minha disciplina militar, não importava tanto ali. O obstáculo não era a pista de obstáculos; era o refeitório. O meu pelotão era 80% composto por jovens de vinte e poucos anos. Eles falavam gírias rápidas que eu ainda estava decifrando, conectavam-se através de memes que eu não entendia, e olhavam para mim como se eu fosse um professor substituto.

E havia a voz na minha cabeça. Literalmente.
Eu falava inglês fluentemente, mas o meu sotaque era pesado, carregado com as vogais de Portugal. Num trabalho que é 90% comunicação verbal; acalmar bêbados, comandar cenas de crime, prestar depoimento, eu estava apavorado. Cada vez que eu abria a boca, sentia o rótulo de “estrangeiro” colar no meu peito. Eu temia que, quando chegasse o momento de comandar uma sala, eles não ouvissem um Sargento; eles ouviriam um turista.

Capitulo 2

A Armadilha do Karatê

Entrei na força policial com uma arma secreta. Ou assim eu pensava.
Eu era Faixa Preta de Karatê. Na minha cabeça, essa era a minha apólice de seguro. Se as coisas dessem errado, eu tinha os golpes, a velocidade, a força.

Eu estava errado.
O policiamento moderno não é um filme do Bruce Lee. É um campo minado de responsabilidade civil. Vivemos na era do smartphone. Cada imprisionamento é uma estreia de cinema. E deixe-me dizer, um policial golpeando um cidadão. mesmo que seja um golpe justificado e necessário contra um agressor violento, parece horrível na tela de um iPhone.

Vi colegas confiarem nos punhos. Vi as consequências: mãos quebradas (crânios são mais duros que nossos dedos), joelhos rompidos e a papelada interminável para justificar cada golpe. Golpear é caótico. Cria distância quando você precisa de controle. Causa dor quando você precisa de conformidade.

A minha Faixa Preta, que eu usava com tanto orgulho, parecia uma ferramenta de uma era passada. Eu precisava de algo que não parecesse violência. Eu precisava de algo que parecesse controle.

Capitulo 3

A Arte Suave na Grama

A lição veio numa tarde úmida, respondendo a um chamado de violência doméstica. O homem estava agitado, andando de um lado para o outro, a agressividade subindo como uma febre. Ele não ouvia os comandos verbais. Ele era grande e estava pronto para explodir.

O meu parceiro estava tenso, com a mão pairando perto do cinto. Nos velhos tempos, ou talvez com um policial diferente, aquilo acabaria com spray de pimenta, cassetetes ou pancadaria.

Eu fechei a distância. Não com uma base de luta, mas com uma calma que eu não tinha sentido na Academia. Quando ele avançou, eu não soquei. Eu mudei de nível.
Segurei uma perna (single leg), guiando o ombro no quadril dele. Não foi uma queda violenta; foi um guia. Levei-o para um pedaço de grama macia no jardim da frente.

Antes que ele pudesse reagir, eu tinha o braço dele isolado. Uma Kimura.

Kimura no Jiu Jitsu é uma finalização (chave de braço) que ataca a articulação do ombro do oponente, forçando-o a bater (“tapar”) devido à dor e à ameaça de lesão. É uma técnica versátil, usada também como controle posicional para transições, varreduras e para defender-se, popularizada por Masahiko Kimura em um desafio contra Hélio Gracie em 1951, embora a técnica já existisse no Judô (Ude-Garami)

Pode quebrar um braço se você puxar com força. Mas se você apenas segurar? É um controle remoto para o corpo humano. Eu não forcei. Apenas segurei. Sussurrei no ouvido dele: “Amigo, acabou. Não se mexa e você não vai se machucar.”

A luta saiu de dentro dele. Ele foi algemado sem um arranhão. Levantei-me, limpei os joelhos e olhei para o meu parceiro. Sem sangue. Sem ossos quebrados. Sem vídeo viral.
Isto, pensei eu. Este é o caminho.

Capitulo 4

O Moedor de Carne

Se a rua foi onde descobri o valor do Jiu-Jitsu, o tatame foi onde paguei o imposto.

Eu tinha me apaixonado pela eficácia do grappling, então comprometi-me com o treino. Mas eu tinha entrado numa “Escola da Vida Dura”.
A pedagogia era pré-histórica. Era o método “nadar ou afundar”.
Aqueça até vomitar. Aprenda uma técnica por cinco minutos. Depois lute até morrer.

Como faixa branca, eu era carne fresca. Os faixas mais graduados não viam um parceiro de treino; viam um boneco de pancada. Eles me jogavam como um trapo. Eles me amassavam. Não havia fluidez, apenas força.

E o meu corpo, agora nos seus 40 anos, começou a cobrar a conta.
Lembro-me do estalo de uma costela, uma dor insuportavel que custava a respirar.
Lembro-me do menisco rompido, o joelho inchando como uma toranja, travando enquanto eu tentava perseguir um suspeito pulando uma cerca semanas depois.
Lembro-me dos dedos, permanentemente inchados, parecendo gravetos tortos.

Eu mancava para entrar na delegacia para um turno da noite, escondendo o mancar para que o Sargento não me tirasse da rua. Eu prendia os dedos com esparadrapo para conseguir segurar uma caneta. Eu estava aprendendo a controlar os outros, mas estava perdendo o controle da minha própria integridade física. Eu estava me quebrando para aprender a não quebrar os outros.

Capitulo 5

A Virada Intelectual

Um homem racional teria desistido.
Por que pagar dinheiro para apanhar, apenas para ir para um trabalho onde você pode apanhar de graça?

Mas eu era teimoso. Eu tinha visto a mágica naquele gramado. Eu sabia que se eu conseguisse aprender essa arte sem destruir o veículo, eu seria um policial melhor e um homem melhor.

Percebi que o problema não era o Jiu-Jitsu; era o ensino.
Comecei a procurar uma maneira melhor. Parei de tentar ganhar rounds na academia contra lutadores de 25 anos. Comecei a tratar o BJJ como um Doutorado, não como um clube da luta.

Descobri recursos como BJJ Mental Models e BJJ Concepts. Comecei a entender alavancagem, estruturas e pedagogia. Aprendi que se pode treinar devagar. Aprendi que “ceder” não é perder.

Voltei para os tatames, mas desta vez, levei o meu cérebro, não apenas a minha coragem. Aceitei que eu seria o “Tiozão” que puxa para a guarda, que joga seguro, que bate (desiste) cedo.

Porque eu tinha um distintivo para usar na manhã seguinte. E percebi que a faixa mais importante não era a que estava na minha cintura, era a que mantinha as minhas calças no lugar enquanto eu fazia o trabalho que amava.

 Conclusão

Ser policial aos 40 ensinou-me humildade. Ser faixa branca aos 40 ensinou-me sobrevivência.
Aprendi que não se combate fogo com fogo; combate-se fogo com água. Você o sufoca. Você o controla.
E às vezes, você tem que deixar uma costela curar para poder lutar outro dia.

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