
Capítulo 1
A Fuga Que Vira Caminho
No início de 1999, fiz o que pessoas quebradas às vezes fazem: fugi. Minha primeira esposa tinha morrido há pouco tempo e Portugal, o meu Portugal bonito, familiar e sufocante, parecia um túmulo com o meu nome gravado na pedra. A União Europeia tinha-me dado o direito legal de ser cidadão em qualquer país do continente. Decidi testar essa liberdade.
Passei seis meses em Espanha, a trabalhar, viajar, tentar fugir da dor acumulando quilómetros. Não resultou. O luto também corre bem. Então, voei para Londres.
É aí que a história fica interessante, porque Londres não me curou, mas mostrou-me algo que eu nunca tinha visto antes. Pela primeira vez na vida, eu não era minoria. Ou melhor, era uma minoria no meio de milhares de outras minorias, o que é quase o mesmo que ser invisível da melhor forma possível. Os meus amigos mais próximos eram mochileiros, viajantes, imigrantes, pessoas que também tinham escolhido ser estranhas numa terra estranha. Encontrávamo-nos nos pubs locais e discutíamos política, filosofia e se algum de nós seria capaz de mudar o mundo com as nossas ideias.
Hoje soa ingênuo. Mas não era. Era esperança disfarçada de ideologia.
Cresci a sentir-me um estranho no meu próprio país. Nascido em Angola, filho de pais mestiços que fugiam da guerra civil nos anos 70, eu era uma criança refugiada de uma ex-colónia portuguesa. Mas Portugal, o “país-mãe”, não nos tratou como filhos. Éramos convidados indesejados. Em Inglaterra, rodeado de gente de todo lado e de lado nenhum, senti pela primeira vez que pertencia a algum lugar.
Alguns anos depois, inesperadamente, conheci uma Australiana. Voltei a apaixonar-me, um sentimento que não sentia há muito tempo. E, porque o amor transforma todos nós em tolos, segui-a até ao outro lado do mundo.

Capítulo 2
Chegada a Melbourne
Depois de um voo de trinta horas, desci finalmente na ensolarada Melbourne. Era 2003, e a Austrália brilhava em possibilidades. A família da minha parceira era sólida, acolhedora. Fiquei e trabalhei com o pai dela, que tinha um restaurante em Queenscliff, em uma zona regional turistica no interior de Victoria, mesmo em frente ao mar. Ele cozinhava alguns dos melhores pratos que eu já tinha comido na vida. Às vezes voltava para a cidade e ficava com a minha sogra em Parkdale, um bairro residencial calmo, também perto da praia, a uns quinze minutos a pé.
Eu sentia que estava a viver o sonho australiano.
Depois veio o pontapé na cara da realidade: o meu visto de visitante, de doze meses, expirou.
A minha segunda filha tinha acabado de nascer e eu tive de voltar para Inglaterra e esperar. A burocracia era bizantina. Meses viraram dois anos. Quando o meu visto foi finalmente concedido, no fim de 2005, a relação com a mãe dela já se tinha partido com a distância. Fiz o possível para reatar, mas o estrago estava feito e não havia volta.
Eu tinha trinta e dois anos, pai solteiro de duas filhas, uma delas mal me conhecia, a regressar a um país sem fazer ideia do que o futuro nos reservava.

Capítulo 3
Recomeçar do Zero, Outra Vez
O meu primeiro emprego foi numa empresa de eventos, montando palcos em concertos de rock e festivais. Como músico amador que tocou em bandas de Rock/Metal, eu adorava aquilo. Mas eu também tinha uma qualificação profissional de eletricista, obtida em Portugal, o que significava que podia conseguir um patrocínio — e consegui.
Uma empresa de engenharia patrocinou-me. Foi aí que conheci o Daivo, uma verdadeira lenda!
No início, tive de trabalhar em dois empregos para pagar as contas. O segundo “trabalho” era como DJ — não “disc jockey”, mas “dish jockey”: lavador de pratos no Grandma Funks, sim, ótimo nome. Era péssimo ter de trabalhar da noite até de madrugada, mas as contas não se pagavam sozinhas.

Isto é algo de que os imigrantes nem sempre falam, talvez por parecer ingratidão: a Austrália é um país lindo, e eu sou genuinamente grato por estar aqui. Mas os primeiros anos são brutais. Existe uma solidão tão densa que se sente no peito. Uma ansiedade social constante por seres “o gajo do sotaque estranho”. Vem também a depressão, e aquele zumbido constante de stress financeiro de fundo.
Como imigrante, começas do zero, não interessa o que já construíste antes.
Houve momentos — demasiados — em que eu não via luz ao fundo do túnel. Estorei o limite dos cartões de crédito e entrei em dívidas. Passava noites acordado a fazer contas, vezes sem conta, à procura de uma equação que não acabasse em falência.
Mas eu tinha duas filhas, e fiz-lhes uma promessa silenciosa: ser um bom pai e um bom exemplo. Tinha de me manter forte, um dia de cada vez, um problema de cada vez.

Capítulo 4
O Caminho de Volta ao Tatame
Enquanto equilibrava dois empregos, a paternidade e a dura realidade de construir uma vida num país novo, uma coisa continuava firme: as artes marciais. Principalmente o karaté. Tinha sido o meu porto seguro desde a adolescência, e não ia ser diferente agora.
Eu precisava encontrar um dojo. Rápido.
Quando pisei num tatame na Austrália pela primeira vez em anos, algo inesperado aconteceu: eu lembrava-me de tudo. É mesmo verdade o que se diz sobre andar de bicicleta. Eu estava enferrujado, claro, mas a base ainda estava lá. As mãos ainda sabiam para onde ir. Os pés ainda reconheciam os movimentos.
Treinei em vários dojos antes de me fixar no UMMA (Ultimate Mixed Martial Arts), no leste de Melbourne. Passei quatro anos lá, treinando tanto Muay Thai como uma segunda aula que era uma mistura de diferentes artes marciais jogadas no liquidificador, com foco no karaté e na sua infinidade de katas, cada vez mais difíceis à medida que subíamos de graduação.
Foi no UMMA que tive o meu primeiro contacto sério com o Jiu-Jitsu Brasileiro. Não entendi nada no início. Parecia luta de chão, tipo dois caras abraçados no tapete. Mas eu estava a aprender, devagar, a confiar no processo, a aceitar que havia mais do que uma forma de vencer uma luta.
Aquele dojo tornou-se a minha segunda casa. Não porque o treino fosse fácil, não era, mas porque era honesto. Lá dentro não havia espaço para contas em atraso, depressão ou solidão. Só existia o que o meu corpo conseguia fazer e o que a minha mente estava disposta a aceitar. Só existia o foco em melhorar, aprender a próxima técnica, encontrar o próximo parceiro disposto a treinar comigo e testar o que eu tinha aprendido.

Capítulo 5
O Ponto de Virada
Os meus piores momentos vieram em grupos. As dívidas, sim. Mas também a solidão de ser a única pessoa na sala que se lembrava de tudo o que tinha perdido. A culpa de ter de reconstruir a relação com a minha filha mais velha, já com idade suficiente para entender que eu tinha perdido anos da vida dela. A vergonha de ter de recomeçar do zero aos trinta.
Mas eu tinha algo a meu favor, mesmo quando não conseguia ver: tinha aprendido disciplina. O Exército ensinou-me isso. O meu pai também, embora de uma forma mais dura. E cada dojo em que treinei reforçou essa lição.
Eu também tinha o Davo, que conheci pouco depois de chegar à Austrália. Ele tornou-se um dos meus melhores amigos. Não porque tivéssemos tudo em comum, não tínhamos, mas porque ele era uma presença firme numa vida que parecia estar constantemente a ser reorganizada por forças fora do meu controlo. Esse tipo de amizade é raro. É um farol num oceano em tempestade.
Continuei positivo. Ou, pelo menos, funcional — que às vezes é a mesma coisa. Treinei muito. Trabalhei mais ainda. Lutei para conservar o amor e o respeito das minhas filhas. Devagar, em silêncio, as coisas começaram a mudar.

Capítulo 6.
Reinventar Sem Apagar.
Aprendi que reinvenção não é o mesmo que apagar. Eu não deixei de ser português quando me tornei australiano. Não apaguei o luto, nem a história, nem os fracassos. Eu somei tudo isso. Tornei-me algo maior e mais complexo, uma pessoa que carrega vários países dentro do peito.
Hoje eu digo que sou cidadão do planeta Terra. Sim, soa a cliché, e não me incomoda. Já viajei o suficiente para saber que “casa” tem menos a ver com geografia e mais a ver com as pessoas à nossa volta e com a coragem de sermos nós mesmos ao pé delas.
Não tenho religião preferida nem bandeira política. Sou mente aberta, gosto de ouvir opiniões diferentes, pontos de vista diferentes, acho fascinante. As nossas diferenças é que nos tornam humanos e interessantes.
Na Copa do Mundo, torço por Portugal e também pelo Brasil, porque aprendi a amar mais do que uma coisa.
Daqueles primeiros anos, o que mais me orgulha não é o facto de ter sobrevivido. Sobreviver é o que se faz quando a alternativa é inaceitável. O que me orgulha é ter voltado a estudar, num país estrangeiro, já nos quarenta. Estudar todas as noites até tarde, trabalhar como eletricista durante o dia e forçar o cérebro à noite, para me tornar polícia. Encontrei uma forma de servir o país que me deu uma segunda chance.
E tenho orgulho das minhas filhas, da relação que temos hoje. Do facto de elas saberem que o pai é o tipo de homem que cai, fica no chão só o tempo suficiente para recuperar o fôlego e depois levanta-se outra vez.

Capítulo 7
A Mentalidade de Faixa Branca
Tive de largar o orgulho, isso foi necessário, foi sobrevivência. O que eu lutei para manter foi simples: o amor e o respeito das minhas filhas e a certeza de que são os desafios que nos moldam.
Sou um homem mestiço, falo com sotaque. Cheguei a um país onde não pertencia e mesmo assim construí uma vida. Já competi em vários estilos de artes marciais, ganhei algumas, perdi outras e aprendi com todas as experiências. Fui quebrado e reconstruído usando as únicas ferramentas que tinha: disciplina, artes marciais e uma teimosia enorme em não desaparecer.
Fui criança refugiada. Jovem de luto. Pai separado. Imigrante com cartões de crédito estourados. Eletricista. Polícia. Em cada uma dessas fases, eu era faixa branca. Sem saber o que vinha a seguir, mas confiando no processo.
O Jiu-Jitsu tem sido o meu próximo desafio, e estou a aproveitar cada momento. Aceitei que faixa branca não é o fundo da escada. Faixa branca é a pessoa que decidiu que aprender é mais importante do que o ego.
O próximo desafio já está à espera. E o seguinte também. E eu estou pronto para todos, porque aprendi a lição mais importante da minha vida: reinvenção não é fraqueza. É a maior prova de força que alguém pode dar. É a mentalidade de faixa branca — a disposição de começar do zero, vezes sem conta, confiando que vais aprender.
Então eu caminho até ao tatame. Faço uma vénia. E começo.
E a vida, assim, passa a valer a pena.

