
Introdução
Na minha adolescencia, minhas noites de fim de semana nunca foram sobre baladas ou multidões. Eram verdadeiras peregrinações com uma missão: ir até a locadora do bairro. Aqueles corredores, cheios de capas plásticas desbotadas do chão ao teto, tinham uma magia própria. Para mim, sempre se tratava de encontrar o ultimo filme de Kung Fu ou um blockbuster do Jean-Claude Van Damme. Foi ai que começou minha história com as artes marciais.

Capitulo 1
Vou te contar uma coisa: enquanto o resto do mundo parecia hipnotizado por Bruce Lee, eu nunca fui muito fan. Estranho talvez, para um entusiasta das artes marciais, mas eu sempre fui daqueles que fogem das modas. Onde outros viam o Bruce Li como uma lenda do Kung Fu, eu preferia rir das trapalhadas do Jackie Chan ou assistir as acrobacias do Jet Li e Sammo Hung. E sim, nada se comparava ao chute giratório voador do JCVD. Toda vez que Van Damme executava um daqueles, me dava vontade de aprender tambem, então comecei a praticar nos meus irmãos.

Capitulo 2
Esses filmes despertaram algo profundo em mim. Não eram só os chutes altos ou as coreografias alucinantes, era o mundo por trás das lutas. A filosofia dita suavemente pelos velhos mestres sábios. A força mental que emanava dos rostos calmos e focados antes de um confronto. O jeito que esses guerreiros pareciam completamente em paz, mesmo quando o caos estava prestes a explodir.
Comecei a acreditar, talvez ingenuamente, que eu também poderia me tornar uma potência mental e física. Que, se eu treinasse duro, conquistaria aquela mesma calma zen diante do perigo. Bem, estava meio certo. Essas lições alimentaram meus sonhos de viajar pelo mundo e foram valiosas na minha carreira policial. Embora eu admita: manter-se “totalmente em paz” lutando com um bêbado duas vezes maior num estacionamento do Mix Mateus às duas da manhã é bem mais difícil do que parece nos filmes. O Van Damme nunca precisou preencher relatorio de ocorrência depois, né.

Capitulo 3
Hoje percebo que aquelas noites não foram apenas entretenimento à toa. Foram o início da minha paixão vitalícia pelas artes marciais. Eu era atraído não só pela ação, mas também pelas lições entre um soco e outro, a disciplina, a resiliência e a capacidade de se manter calmo diante das adversidades. Tudo começou ali, diante de uma tela tremulante, com JCVD, Jackie, Jet e Sammo mostrando o caminho.

Capitulo 4
E foi assim que minha jornada começou, não porque segui a multidão, mas porque sempre busquei meu próprio caminho.
O que esses filmes me ensinaram, além das coreografias e frases de efeito, é que artes marciais, na verdade, não têm a ver com brigar.
Tem a ver com se tornar alguém que não precisa brigar.
A disciplina de aparecer mesmo quando não está com vontade.
A humildade de aceitar a derrota e aprender com ela.
A paciência para dominar algo devagar, durante anos, não em semanas.
Hoje, quer eu esteja rolando no tatame, enfrentando um país novo como imigrante ou tomando decisões em fração de segundo de uniforme, os princípios são os mesmos: manter a calma sob pressão, respeitar o oponente (ou o desafio) e nunca parar de aprender.
No fim das contas, o verdadeiro “inimigo” nunca foi o cara à minha frente. Era meu próprio ego, minha impaciência e meus medos. E diferente dos filmes, esses não dá pra vencer com um chute giratório. Pode acreditar, eu tentei.

